Airliners - The World's Airline Magazine
D.R.Carneiro - fotógrafo de Aviação, Náutica, Turismo, Arquitetura e Fotografia Aérea
Anuncie em Aviation On Line


Entrevista com José Mario Caprioli dos Santos, Presidente da TRIP

10/2009 (Daniel R.Carneiro, Aviation On Line)

Aviation On Line entrevistou José Mario Caprioli dos Santos, presidente da TRIP Linhas Aéreas, maior companhia aérea regional da América Latina.

José Mario Caprioli dos Santos, presidente da TRIP (foto D.R.Carneiro, Aviation On Line)
Em apenas onze anos de existência, a TRIP já é a maior companhia aérea regional do Brasil - e recentemente atingiu a posição de maior da América Latina -, voando para mais de 70 cidades e possuindo a maior malha doméstica entre as empresas nacionais. Com entrada do grupo norte-americano Skywest como sócio, a TRIP ensaia voos mais altos, incorporando à frota seus primeiros jatos.

Aviation On Line entrevistou o empresário José Mario Caprioli dos Santos, presidente da TRIP.

Aviation On Line - Diz-se que o mercado regional no Brasil é pouco rentável, operando rotas deficitárias para destinos remotos como a região da Amazônia. A TRIP vem obtendo ou espera alcançar bons resultados mesmo sem incentivos ou subsídios do governo? Pode-se dizer que a TRIP é uma regional auto-sustentável?

Caprioli - O desafio de tornar o mercado regional rentável é enorme. Na história da nossa aviação, normalmente ele atingia o equilíbrio com ajuda de políticas de governo ou porque estava dentro da estratégia de uma “major”. Conforme nossa divulgação de balanço deste semestre, demonstramos como conseguimos tornar este mercado rentável e obtivemos as melhores margens de EBITDA de toda indústria doméstica por 2 anos seguidos. Estamos nos desafiando sempre para conseguir seguir este padrão nos próximos anos. Nossa receita é combinar nas operações jatos e turbo-hélices para diversas cidades, trabalhando de forma adequada as ligações regionais, conforme a densidade de tráfego e distância entre cada destino e sempre interconectada. Estamos crescendo em média 70% ao ano e investindo em novas aeronaves e expansão da malha e nossa expectativa é de em cinco anos dobrar nossa frota. No ano passado, faturamos R$ 322 milhões e transportamos mais de 1 milhão de passageiros. Neste ano, esperamos faturar cerca de R$ 510 milhões e transportar aproximadamente 1,7 milhão de passageiros.

Aviation On Line - Assistimos, na história recente da aviação comercial brasileira, à transformação das maiores empresas aéreas regionais do país - exemplos da TAM, das extintas Rio-Sul e Nordeste, e mais recentemente da OceanAir - em companhias nacionais, passando a explorar apenas rotas mais nobres e de maior demanda. A TRIP poderia seguir esse mesmo caminho, deixando as linhas regionais em segundo plano, caso os resultados se apresentem desfavoráveis, ou manterá seu foco na aviação regional mesmo que isso signifique perda de rentabilidade?

Caprioli – Se outras empresas escolheram alterar o foco do negócio ao longo de seu desenvolvimento, não é o que pretendemos fazer. Nascemos como uma empresa regional e acreditamos que é isso que sabemos fazer bem. Existe espaço na aviação regional para cumprirmos nossos objetivos de crescimento e rentabilidade. O mercado regional hoje no Brasil representa 2%, enquanto nos USA este número é de 25%. Nossa expectativa é que em 10 anos a aviação regional atinja a fatia de 10%, isto é, cinco vezes mais. No país as companhias somadas voam para 150 cidades e esperamos em 10 anos chegar a 300 cidades.  

Aviation On Line - Existe um certo preconceito, por parte do público leigo, contra as aeronaves turbo-hélice no Brasil. Avião com hélices é, para muitos, sinônimo de aeronave antiga, barulhenta e ultrapassada - embora empresas como a TRIP operem aviões última geração como os ATR72-500. É grande a aceitação dos turbo-hélices entre os clientes da TRIP ou esse preconceito é visível entre os passageiros de primeira viagem?

Caprioli – Acredito que ainda existe um pouco deste preconceito sim, mas isto está mudando bem rápido.  Como no ano passado, os turbo-props em operação no Brasil eram de idade mais avançada, este preconceito em parte se justificava. Agora, este cenário está mudando, pois estamos investindo nos ATR’s da série 500, que além de serem aviões de última geração e novos de fábrica, incorporaram avanços que fizeram o ruído interno e externo atingir seu menor nível. Dessa forma, depois que um passageiro nosso voa em um avião deste, e percebe o conforto interno, ele passa a não fazer mais distinção entre um “narrowbody” e um ATR.

Aviation On Line - A TRIP tem, hoje, como sócia, a Skywest - maior empresa de transporte regional do mundo -, com 20% de participação em seu capital. De que forma a experiência da Skywest no mercado norte-americano pode contribuir com os planos da TRIP?

Caprioli – A parceria com a Skywest concretiza um importante passo não só para o crescimento da companhia, como também para o desenvolvimento de um modelo moderno e eficiente de aviação regional no país, alavancando a capacidade de distribuição e alimentação. A SkyWest Inc. (detentora nos Estados Unidos das empresas SkyWest Airlines e ASA), é especializada em operar aeronaves abaixo de 100 assentos ao menor custo possível, e é isto que queremos replicar aqui com a ajuda deles. Além disto, o modelo de operações regionais em parcerias com as empresas troncais é outra vertente deles que também queremos focar. Desta forma, a possibilidade de nos trazer expertise em várias frentes é enorme, seja no planejamento de rotas, na transferência de tecnologia (processos) e know-how no que diz respeito à operação, manutenção e financiamentos nacionais e internacionais para a aquisição de aeronaves.

Caprioli e o astro do basquete Oscar Schmidt durante o lançamento dos novos voos da TRIP para o Rio de Janeiro (foto D.R.Carneiro, Aviation On Line)
Aviation On Line - Que benefícios imediatos esse reforço de capital com a entrada de um sócio trouxe à empresa? Com a atualização da legislação brasileira, aumentando o limite de capital estrangeiro em companhias aéreas do país para 49%, há interesse da Skywest em ampliar seus investimentos ou de outros sócios estrangeiros em participarem da empresa?

Caprioli – Com o aporte de recursos, garantimos mais musculatura e estabilidade financeira para dar continuidade ao nosso plano de expansão. Quando estávamos em negociação com a SkyWest, associamos o lançamento dos jatos ao aporte que seria feito, uma vez que teríamos os recursos necessários, e mais do que isto, traríamos a bordo uma empresa que já havia feito isto anos atrás nos Estados Unidos, com muito sucesso. Com relação à entrada de capital estrangeiro, vemos isto com bons olhos, pois estamos em uma indústria com capitais muito intensivos, e qualquer meio que possibilite isto é muito bom, apesar de hoje em dia não haver nenhuma tratativa de entradas adicionais.

Aviation On Line - Os dois sócios brasileiros da TRIP - os grupos Caprioli e Águia Branca - estão entre os mais fortes no transporte rodoviário de passageiros e cargas do país. Que contribuições a história de sucesso dessas empresas trouxe para o planejamento estratégico e para a administração da TRIP?

Caprioli – Os Grupos Caprioli (com mais de 80 anos) e Águia Branca (com mais de 60 anos) nos trouxeram a experiência de empresas com histórico de resultados sólidos e crescimento sustentado, ambas com origens no transporte de passageiros. O berço da TRIP foi dentro do grupo Caprioli, mas confesso que a entrada do grupo Águia Branca, hoje um dos maiores grupos de logística do país, foi um divisor de águas, na medida em que consolidou na empresa sua visão estruturada de governança corporativa, bem como seu foco em resultados consistentes.

Aviation On Line - As empresas do grupo já operam em sistema multimodal, com as linhas interestaduais e intermunicipais de ônibus e os caminhões do grupo alimentando a malha aérea com passageiros e cargas?

Caprioli – A intermodalidade não é ainda uma atuação que enfatizamos. Nos próximos anos, pretendemos estruturar uma logística de carga expressa integrada, bem como verificar de que forma a distribuição de vendas que a capilaridade das empresas de ônibus possuem, podem agregar passageiros.

Aviation On Line - Um mercado com demanda e potencial para crescer é o de voos regionais entre países vizinhos, ligando cidades fronteiriças (como as das regiões Norte e Centro Oeste à Bolívia, Colômbia e Venezuela ou do Sul e Sudeste ao Paraguai, Uruguai e Argentina, por exemplo). Está nos planos da TRIP oferecer esses serviços?

Caprioli – Como somos uma empresa que atende a muitas cidades fronteiriças do lado oeste do país, os voos internacionais regionais serão uma ampliação natural. Uma das alternativas é explorarmos rotas no Mercosul, porém sempre longe dos grandes centros, cumprindo o papel de companhia internacional regional. Podemos citar como exemplo a forte relação econômica entre Cuiabá (Mato Grosso) e Santa Cruz de La Sierra, na Bolívia, rota que já estamos estudando.

Aviation On Line - Para encerrar, gostaríamos de ouvir sua opinião sobre atual política de aviação civil no país. Essa política torna a aviação regional viável? O que pode melhorar?

Caprioli – Logicamente, o arcabouço regulatório da aviação comercial no país é algo em evolução. A lei de criação da ANAC, que transformou a gestão militar em uma agência civil é muito recente e precisa ser modernizada ano após ano. Mas foi uma evolução importante no sistema, uma vez que criou liberdades tarifárias e de exploração de rotas, em linha com tendências internacionais. Nossa expectativa é que nossa legislação evolua para criarmos empresas nacionais cada vez mais fortes, e que sempre crescem em linha com os interesses do consumidor.


Veja também

©2007-2008 Aviation On Line - Revista e Portal de Aviação, Rio de Janeiro, Brasil
Página Inicial Fale conosco Aviation On Line (clique para voltar à página inicial)